31.7.05

MEU OLHAR PERSEGUE

Por quem foi que me trocaram (Fernando Pessoa)

Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.
Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele esta feito
É que tens para me dar.
Depois aperta-me a mão

E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim?

29.7.05

SEMPRE MEXENDO NA VIDA


Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou - mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente
Não ter juízo nos meus livros - mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.

Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas
-À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai,
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair - não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
- Pôr termo a isto de viver na lua,
- Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento
-Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento
Que tudo em é fantasia alada,

Um crime ou bem que nunca se comete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

Mario de Sa Carneiro

28.7.05

MISTÉRIOS QUE ME HABITAM


Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.
São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.
Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

(Fernando Pessoa)

26.7.05

ESPERA POR SÉCULOS


Canção - Cecília Meireles

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.

25.7.05

O VENTO E EU por Neruda


O Vento na Ilha
O vento é um cavalo

Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe.
Me esconde em teus braços

por somente esta noite,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.
Escuta como o vento

me chama galopando
para me levar para longe.
Com tua frente a minha frente,

com tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.
Deixa que o vento corra

coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando tanto eu, emergido
debaixo teus grandes olhos,
por somente esta noite

descansarei, amor meu.

Pablo Neruda

24.7.05

Serei, Serás e Seremos

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,

sem que vás cortando
o meio dia com uma flor azul,
sem que caminhes mais tarde

pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas,
enfim,sem que viesses brusca,
incitante conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então,
sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...


Pablo Neruda

23.7.05

Uma Bela Flor nos brinda com uma linda poesia

O Nosso Mundo
Florbela Espanca

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos,

Os meus sonhos agora são mais vagos ...
Como um divino vinho de Falerno!
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno ...

Pousando em ti o meu olhar eterno

E a Vida já não é o rubro inferno
Como pousam as folhas sobre os lagos ...
Todo fantasma triste e presságios!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-las!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor!... As nossas bocas juntas!

21.7.05

OLHAR O BELO _Ilhas afortunadas (F. Pessoa)


QUE VOZ VEM no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos falla,
Mas que, se escutarmos, calla,
Por ter havido escutar.
E só se, meio adormecido,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ella nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter logar
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos dispertando,
Calla a voz, e ha só o mar.